#1. Desnuda
ou a exposição
Oi, sumida, voltei. Demorei mais do que o previsto nesse regresso, a vida urge e ando às voltas com caminhos profissionais. Feliz e grata que vocês continuam aqui.
Como já cantei a bola, a news agora muda de foco. Saio da casa, da Pantufa e do Fernando e me debruço sobre um assunto que, se não é o meu preferido, está quase lá: processo criativo. Vou abordá-lo a partir da trilha que fiz entre a literatura e o teatro porque é nesse híbrido que me encontro e me perco.
*
Foi pelo corpo que comecei a entender a autoexpressão. Não tinha nem dez anos quando fui parar numa escola que, para minha sorte, em Joinville (SC), no ano de 1991, tinha uma disciplina improvável para aquele tempo-espaço: expressão corporal.
Que benção era aquilo.
Eu me entregava de um jeito que parecia memória, como se já soubesse, de muito tempo antes, falar com o corpo. Dançar, criar movimento, compor partituras com braços, pernas e rosto, ouvir a música, o ambiente, estar em cena. Dali, não quis mais sair do palco até os meus vinte e oito anos, quando decidi, por extremismo, desaparecer.
Aos vinte e oito, em pleno retorno de Saturno, depois de algum sucesso e muitas desilusões como atriz, casei. Resolvi levar uma vida bela, recatada e do lar, carteira assinada, longe de qualquer arte, Deus me livre, não dá mais.
Esse hiato durou quatro anos. Quatro anos de um corpo domesticado, sentado, produtivo e previsível até que comecei a me coçar de novo — coincide, mais ou menos, com o período em que me divorciei, e deixo aqui a deixa para os psicanalistas.
Um ano depois, ainda sem saber por onde retomar a criação artística, foquei no que me ocupou naqueles anos sem palco, algo como o corpo de um modelo-vivo: massa estática, sem palavra, vulnerável e, de certo modo, invisível.
Depois desse tempo sem criar (ou sem reconhecer que ainda criava) decidi que precisava me expor com urgência, romper. O corpo de um modelo-vivo não é metáfora aqui. Para mim, à época, por mais estranho que possa parecer, não havia forma mais radical de fazer isso do que estar nua diante de desconhecidos alunos e alunas das artes plásticas.
Liguei e mandei e-mail para muitas escolas de desenho em São Paulo. Me apresentei como atriz, perguntei se a grade dos cursos contava com aulas nesses moldes e me coloquei à disposição.
Não demorou para os chamados aparecerem. E, não sem algum receio, com cara, corpo, curiosidade e coragem, fui.
As salas eram silenciosas. O tempo das poses se alongava no corpo, às vezes um, às vezes cinco minutos em cada pose ao longo de uma hora. Às vezes, uma perna ou um braço começava a tremer quase imperceptivelmente. O som do carvão no papel era constante e seco. Os olhares era concentrados, nunca invasivos, mas também nunca ausentes.
Em casa, eu estudava imagens clássicas de nus artísticos. Depois, nas aulas, reproduzia a Maja Nua, Olympia, Danaë, Vênus em púlpitos improvisados, cercada de aprendizes atentos.
Nunca via o que desenhavam. Na verdade, para não dizer nunca, uma vez uma moça veio me mostrar o desenho que havia feito. A filha dela, uma garotinha fofa de uns oito anos, também fez questão de apresentar o que havia desenhado a partir de mim.


Mas, no geral, esse resultado não só não me interessava como também era o que mais me assustava, minha imagem pelos olhos dos outros. Não. Eu não queria ver. Minha experiência não era sobre o olhar deles sobre mim, mas sobre o meu olhar sobre eles, sobre mim. Por quê? Não sei. Mas, de alguma maneira, estar ali parada me deu tempo e me ajudou a me pensar, a descobrir o que eu tanto queria enquanto artista. Qual das minhas tantas inquietações e carências eu abordaria primeiro?
A experiência foi ótima. As interações foram sempre absolutamente respeitosas. Nunca me foi pedido um nu completo — estava sempre, no mínimo, de calcinha. Ainda assim, dois ou três meses depois, passadas quatro ou cinco sessões, essa jornada já havia se esgotado.
*
Não pensava nessa minha fase de modelo-vivo fazia anos e só voltei a pensar porque, na semana passada, topei com o crítico de arte e romancista John Berger, no livro Modos de ver. Nessa coleção de ensaios, ele faz uma distinção entre estar nu e estar desnudo, nomeando exatamente o que me escapou à época:
“Estar desnudo é ser o que se é.
Estar nu é ser visto desnudo pelos outros e, no entanto, não ser reconhecido pelo que se é. (...). A nudez se revela, a nudação se expõe.
Estar desnudo é estar sem disfarce.
Pôr-se à mostra é ter a superfície da própria pele, os pelos do próprio corpo transformados num disfarce que, nessa situação, nunca poderá ser removido. O nu está fadado a jamais estar desnudo”
Lá atrás, naquele 2017, sem ter lido Berger, não sabia que o que eu buscava não era nudez, mas desnudez, e não a desnudez puramente como exposição, mas como conexão. Foi por isso que a experiência se esgotou tão rápido: entendi, no corpo, sempre ele, que o que eu buscava artisticamente exigia troca e palavra, uma via de mão-dupla.
Achei que estar nua seria a forma mais radical de me expor. Ledo engano. Levou um tempo e outras duas experiências performáticas para entender que não, que a forma mais profunda de exposição para mim seria o texto.
*
*
Breve aviso aos navegantes: na nova versão da news os textos não serão tão cronológicos, mas seguirão um fluxo mínimo. Eu gosto de sequência.
Beijos, meus amores, e até daqui a quinze!
![[ensaio sobre o ensaio]](https://substackcdn.com/image/fetch/$s_!kPuu!,w_40,h_40,c_fill,f_auto,q_auto:good,fl_progressive:steep/https%3A%2F%2Fsubstack-post-media.s3.amazonaws.com%2Fpublic%2Fimages%2F9ea1e9ff-1f83-46e1-9bd0-361eafa71fa0_1000x1000.png)



Que experiência interessante, viu! Tai algo que nunca imaginei!
Vc é musa inspiradora: a qualquer inquietação, vai lá e faz, experimenta, vive, revive. Lindo